Observava o mundo como se nunca tivesse estado ali. O frio era estúpido e seu nariz guardava resíduos de poeira condensados no muco, graças à baixa temperatura, formando uma dolorosa placa junto aos pêlos nasais. Pêlos. Possuía-os em variados formatos e cores ao longo do corpo, e sempre que possível raspavá-os, como se neste ato mantivesse a distância entre si e os símios ancestrais.
Não sabia exatamente o que tinha feito com que entrasse na igreja, mais ou menos como os cães. Lá havia uns poucos fiéis, em sua maioria senhoras aposentadas, que criavam e levavam uma vida social em torno das máscaras dogmáticas da fé católica. Gostavam de comentar sobre as refeições servidas pelos paroquianos, pecados imperdoáveis e de deixar suspensa no ar a dúvida sobre o ''caráter católico'' de uma ou outra senhora que eventualmente fez ou fará o mesmo.
Só queria encontrar um local onde pudesse sentar-se longe do frio, com boa iluminação, odor agradável e principalmente, um local onde não precisasse falar com ninguém. Encontrou ali o local perfeito para instalar-se.
Antes de adrentrar o templo sagrado, tentou fazer uma genoflexão¹ e um sinal da cruz, o qual depois verificou ter feito errado. Não o fez por fé, mas por respeito aos que a vissem da entrada. Sentou-se na fileira da direita e observou o comportamento dos fiéis, tão obedientes. Não entendia como as pessoas conseguiam gostar de ser chamadas de ovelhas do Senhor. Decerto que deveria ser agradável sentir-se incluído em um grupo, parte de um rebanho, mas parecia um pouco constrangedor à ela a idéia de algém gostar de ser chamado assim. Deixando estas considerações sobre a vergonha alheia de lado, ajoelhou-se no estrado de madeira, pois não queria causar furor em relação a sua presença ali.
Quando criança, pensava que os estrados eram descansos para os pés, e que as igrejas eram todas bizarras e medonhas. Aquela não. Era uma paróquia pós-moderna, possuía um painel com a Santa Ceia desenhada nos traços de algum artista que não detalhava rostos. O tom do fundo era alaranjado e feliz, contrastando com a seriedade dos bancos cor de carvalho. Jesus sofredor na cruz, como sempre, ali. Imaginava que as pessoas costumavam pensar em um Jesus dilacerado, um salvador benevolente que assim o fez para limpar seus pecados. A imagem é quase digna de pena, uma vez que os esforços dele hoje em dia lhe pareciam em vão. O púlpito tinha um design muito pouco convencional, coberto com uma seda verde esmeralda. As grandes velas, também verdes, em castiçais dourados , complementavam a visão, com o padre de batina branca no centro de tudo. Parecia novo. Era tão delicado que se não fosse padre, provavelmente seria uma transexual. Ao pensar isso, sentiu um pequeno prazer escondido na ''blasfêmia'' e relembrou, na hora do ''este é o meu sangue e esta é a minha carne'' (ou seria o contrário?) que nunca sequer tinha tido vontade de ter aulas em catequeses. Desde cêdo, a fé de indulgências não a atraía.
Ajoelhada ali, nada sentiu. Apreciou o seu não-sentir e quedou parada. Sentou-se e deu tímidos e educados acenos aos fiéis, ao som de '' cumprimentai vossos irmãos na paz do senhor'' ou algo assim e, ao término da cerimônia ( ela já havia chegado quase no final) foi olhar mais de perto o altar.
Perto dos castiçais, sentindo o cheiro doce das velas verdes, perguntáva-se se os padres também não seriam homens que desejam os olhos de um público. Obrigando-se a manter o celibato num esforço quase mítico de semi-deuses, transferindo seu conhecimento secreto das leis divinas e conforto aos pobres diabos desesperados que como carrinhos de bate-bate, iam parar em suas igrejas; que de suas mãos puras e santificadas jorrasse a fonte inesgotável de bênçãos que eles mesmos acreditavam, e que assim, sendo fiéis e sagrados, seriam maiores que os homens, ganhando não só a ''Paz do Senhor'', como também o respeito e a admiração das hipócritas senhoras aposentadas da paróquia. Seria melhor que assumissem a condição humana e corressem mundo em circos. Mais divertido, inspirador e bonito.
Lembrava-se que em todas as igrejas católicas era regra a existência de um velário na parte interna do prédio. O cheiro e o calor das velas seriam um conforto, o qual ela se permitiria. Saindo de uma porta atrás do altar, o padre, não mais usando a bata branca, e sim uma combinação pequeno-burguesa com uma marca estrangeira gritando no peito. Indagou a ele se havia ali em algum lugar o velário. A resposta, surpreendente, veio em dois sabores:
- Minha filha, você tem duas opções: Tem lá fora o velário convencional e aqui do lado o eletrônico, se você preferir. - E saiu com um sorriso, perguntando a uma menininha de cabelos crespos se ela já havia rezado (o tal do velário eletrônico consistia em lâmpadas em formato de vela, que a pessoa orava e apertava um pequeno botão para ligar).
Ora! Muito conveniente! Hoje em dia as pessoas acendem falsas velas para agradar falsos Deuses e manter sua falsa fé em um perdão inexistente, uma vez que a noção de pecado é uma forma deveras estranha de limitar-se, controlar a sociedade e fugir do que os seres são propostos. Os humanos, pelo menos. Pensou: os cachorros que são espertos e não criam cultos. No reino animal, cada um sabe exatamente o que é e assim é feliz. Por exemplo, nunca vira uma galinha colocando seus ovos em um púlpito (no formato de uma frigideira gigante) no topo de uma montanha, bradando seu amor ao Senhor, com uma marreta na mão.
Imaginou que num futuro próximo, o padre seria um robô santificado pelo Vaticano e o Papa um cérebro conservado de algum idoso com o corpo morto.
Decidiu voltar ao frio, em direção ao velário ''analógico''. Surpreendeu-se ao encontrar somente uma vela, enquanto no interior, quase todas as lâmpadas estavam acesas. Era uma vela grossa, daquelas de sete dias, apagada. Arrepiou-se pois estava ventando, provavelmente a razão pela qual a vela não estava acesa. Pensa que se o desejo da pessoa que a havia deixado ali fosse realmente sincero, a vela haveria de ficar acesa. Sentiu-se então na obrigação de prolongar um pouco a esperança e com a ajuda de um isqueiro preto e longo, trouxe o fogo ao pavio. Quer fosse para um morto, quer para um vivo que gostasse de promessas, ali estava, acesa e bonita.
Enquanto sentia o calor do clamor dos desesperados emergindo da chama presa ao pavio, sentiu uma vontade enorme de tomá-la para si. Afinal, ela estava abandonada lá, apagada e largada à própria sorte. Pensou que tinha velas em casa e que seria ridículo, apesar de divertido, roubar as velas da igreja. Afinal, o que era divertido que não era ridículo, de certa forma? Tudo dependia de quem olhava. Glorificando ou justificando, não sabe-se ainda, disse para si que seria um ato deliberado de rebeldia, de luta contra a massificação baseada na fé, mas ainda assim, um furto desnecessário.
Quando decidiu não levar a vela, uma rajada gélida decidiu que a chama não tremeluzeria mais e a apagou. Sentiu-se cansada daquilo tudo e acendeu, não a vela, mas um cigarro. Encaminhou-se para casa, com o nariz ainda dolorido e gelado de quem vê a fumaça da respiração no ar.
¹ Genoflexão: Flexão dos joelhos, hábito comum entre católicos ao entrar ou passar por uma igreja.
Não sabia exatamente o que tinha feito com que entrasse na igreja, mais ou menos como os cães. Lá havia uns poucos fiéis, em sua maioria senhoras aposentadas, que criavam e levavam uma vida social em torno das máscaras dogmáticas da fé católica. Gostavam de comentar sobre as refeições servidas pelos paroquianos, pecados imperdoáveis e de deixar suspensa no ar a dúvida sobre o ''caráter católico'' de uma ou outra senhora que eventualmente fez ou fará o mesmo.
Só queria encontrar um local onde pudesse sentar-se longe do frio, com boa iluminação, odor agradável e principalmente, um local onde não precisasse falar com ninguém. Encontrou ali o local perfeito para instalar-se.
Antes de adrentrar o templo sagrado, tentou fazer uma genoflexão¹ e um sinal da cruz, o qual depois verificou ter feito errado. Não o fez por fé, mas por respeito aos que a vissem da entrada. Sentou-se na fileira da direita e observou o comportamento dos fiéis, tão obedientes. Não entendia como as pessoas conseguiam gostar de ser chamadas de ovelhas do Senhor. Decerto que deveria ser agradável sentir-se incluído em um grupo, parte de um rebanho, mas parecia um pouco constrangedor à ela a idéia de algém gostar de ser chamado assim. Deixando estas considerações sobre a vergonha alheia de lado, ajoelhou-se no estrado de madeira, pois não queria causar furor em relação a sua presença ali.
Quando criança, pensava que os estrados eram descansos para os pés, e que as igrejas eram todas bizarras e medonhas. Aquela não. Era uma paróquia pós-moderna, possuía um painel com a Santa Ceia desenhada nos traços de algum artista que não detalhava rostos. O tom do fundo era alaranjado e feliz, contrastando com a seriedade dos bancos cor de carvalho. Jesus sofredor na cruz, como sempre, ali. Imaginava que as pessoas costumavam pensar em um Jesus dilacerado, um salvador benevolente que assim o fez para limpar seus pecados. A imagem é quase digna de pena, uma vez que os esforços dele hoje em dia lhe pareciam em vão. O púlpito tinha um design muito pouco convencional, coberto com uma seda verde esmeralda. As grandes velas, também verdes, em castiçais dourados , complementavam a visão, com o padre de batina branca no centro de tudo. Parecia novo. Era tão delicado que se não fosse padre, provavelmente seria uma transexual. Ao pensar isso, sentiu um pequeno prazer escondido na ''blasfêmia'' e relembrou, na hora do ''este é o meu sangue e esta é a minha carne'' (ou seria o contrário?) que nunca sequer tinha tido vontade de ter aulas em catequeses. Desde cêdo, a fé de indulgências não a atraía.
Ajoelhada ali, nada sentiu. Apreciou o seu não-sentir e quedou parada. Sentou-se e deu tímidos e educados acenos aos fiéis, ao som de '' cumprimentai vossos irmãos na paz do senhor'' ou algo assim e, ao término da cerimônia ( ela já havia chegado quase no final) foi olhar mais de perto o altar.
Perto dos castiçais, sentindo o cheiro doce das velas verdes, perguntáva-se se os padres também não seriam homens que desejam os olhos de um público. Obrigando-se a manter o celibato num esforço quase mítico de semi-deuses, transferindo seu conhecimento secreto das leis divinas e conforto aos pobres diabos desesperados que como carrinhos de bate-bate, iam parar em suas igrejas; que de suas mãos puras e santificadas jorrasse a fonte inesgotável de bênçãos que eles mesmos acreditavam, e que assim, sendo fiéis e sagrados, seriam maiores que os homens, ganhando não só a ''Paz do Senhor'', como também o respeito e a admiração das hipócritas senhoras aposentadas da paróquia. Seria melhor que assumissem a condição humana e corressem mundo em circos. Mais divertido, inspirador e bonito.
Lembrava-se que em todas as igrejas católicas era regra a existência de um velário na parte interna do prédio. O cheiro e o calor das velas seriam um conforto, o qual ela se permitiria. Saindo de uma porta atrás do altar, o padre, não mais usando a bata branca, e sim uma combinação pequeno-burguesa com uma marca estrangeira gritando no peito. Indagou a ele se havia ali em algum lugar o velário. A resposta, surpreendente, veio em dois sabores:
- Minha filha, você tem duas opções: Tem lá fora o velário convencional e aqui do lado o eletrônico, se você preferir. - E saiu com um sorriso, perguntando a uma menininha de cabelos crespos se ela já havia rezado (o tal do velário eletrônico consistia em lâmpadas em formato de vela, que a pessoa orava e apertava um pequeno botão para ligar).
Ora! Muito conveniente! Hoje em dia as pessoas acendem falsas velas para agradar falsos Deuses e manter sua falsa fé em um perdão inexistente, uma vez que a noção de pecado é uma forma deveras estranha de limitar-se, controlar a sociedade e fugir do que os seres são propostos. Os humanos, pelo menos. Pensou: os cachorros que são espertos e não criam cultos. No reino animal, cada um sabe exatamente o que é e assim é feliz. Por exemplo, nunca vira uma galinha colocando seus ovos em um púlpito (no formato de uma frigideira gigante) no topo de uma montanha, bradando seu amor ao Senhor, com uma marreta na mão.
Imaginou que num futuro próximo, o padre seria um robô santificado pelo Vaticano e o Papa um cérebro conservado de algum idoso com o corpo morto.
Decidiu voltar ao frio, em direção ao velário ''analógico''. Surpreendeu-se ao encontrar somente uma vela, enquanto no interior, quase todas as lâmpadas estavam acesas. Era uma vela grossa, daquelas de sete dias, apagada. Arrepiou-se pois estava ventando, provavelmente a razão pela qual a vela não estava acesa. Pensa que se o desejo da pessoa que a havia deixado ali fosse realmente sincero, a vela haveria de ficar acesa. Sentiu-se então na obrigação de prolongar um pouco a esperança e com a ajuda de um isqueiro preto e longo, trouxe o fogo ao pavio. Quer fosse para um morto, quer para um vivo que gostasse de promessas, ali estava, acesa e bonita.
Enquanto sentia o calor do clamor dos desesperados emergindo da chama presa ao pavio, sentiu uma vontade enorme de tomá-la para si. Afinal, ela estava abandonada lá, apagada e largada à própria sorte. Pensou que tinha velas em casa e que seria ridículo, apesar de divertido, roubar as velas da igreja. Afinal, o que era divertido que não era ridículo, de certa forma? Tudo dependia de quem olhava. Glorificando ou justificando, não sabe-se ainda, disse para si que seria um ato deliberado de rebeldia, de luta contra a massificação baseada na fé, mas ainda assim, um furto desnecessário.
Quando decidiu não levar a vela, uma rajada gélida decidiu que a chama não tremeluzeria mais e a apagou. Sentiu-se cansada daquilo tudo e acendeu, não a vela, mas um cigarro. Encaminhou-se para casa, com o nariz ainda dolorido e gelado de quem vê a fumaça da respiração no ar.
¹ Genoflexão: Flexão dos joelhos, hábito comum entre católicos ao entrar ou passar por uma igreja.
